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10 de abr. de 2026

O silêncio do galo

 


Crônica – “O silêncio do galo”

O galo cantava todas as manhãs.

Não era apenas um som. Era um aviso. Um começo. Uma presença que, mesmo à distância, marcava o ritmo dos dias sem que eu percebesse.

Por volta de um mês… não o ouço mais.

No início, pensei que fosse distração. Que talvez eu estivesse acordando mais tarde, ou que os pensamentos estivessem ocupando o espaço onde antes o canto chegava. Mas não. O silêncio se repetiu. Dia após dia.

E então pensei… mataram o galo.

Não sei se é verdade. Talvez ele apenas tenha sido levado, trocado de lugar, esquecido em outro quintal. Mas, dentro de mim, algo decidiu que ele não está mais ali.

E isso bastou.

Resolvi, então, fazer jejum de frango por um mês.

Não por protesto.
Não por culpa.
Não por escolha alimentar.

Mas por memória.

Me alimentarei de vegetais.

Não sou vegetariana — e não é pela carne.

É pelo que o canto daquele galo despertava em mim.

Porque, sem que eu percebesse, ele me levava de volta.

De volta às manhãs da minha infância…
ao lado dos meus pais…
quando o tempo parecia mais lento,
mais simples,
mais inteiro.

O canto do galo não era apenas um som.

Era um fio invisível que me conectava a quem eu fui.

E agora, no silêncio, percebo o quanto ele me sustentava.

Talvez a ausência também ensine.

Ensine a lembrar.
Ensine a valorizar.
Ensine a sentir o que, antes, parecia tão pequeno.

Hoje, acordo…
e o dia começa sem anúncio.

Mas, dentro de mim, ainda ecoa um canto antigo.

E é por ele…
que sigo lembrando.

Sândra Camilo

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